22 de set de 2009

O DESENVOLVIMENTO MORAL EM KOLBERG

ARTIGO DE :
Maria Zoê Bellani Lyra Espíndola (Mestranda em Bioética no
curso de Pós-graduação em Direito da Universidade Federal de Santa
Catarina)
Vanessa Bellani Lyra (Licenciada em Educação Física pela Universidade do
Estado de Santa Catarina ,Especialização em Educação Infatil e Séries
Iniciais)


A moralidade tem sido estudada por psicólogos do ponto de vista afetivo
(Psicanálise), do ponto de vista comportamental (behaviorismo, teoria da aprendizagem
social) e do ponto de vista cognitivista (Piaget e Kohlberg).
De acordo com RUIZ (2003, p.2), o ideário de Jean Piaget foi seguido de perto por
Lawrence Kohlberg, psicólogo e filósofo americano, contemporâneo de Piaget. Esse autor
dedica-se a estudar o desenvolvimento moral do ser humano, retomando e aperfeiçoando o
modelo piagetiano.
Segundo BIAGGIO (1997, p.3), Kohlberg iniciou publicamente seus trabalhos sobre
julgamento moral com sua defesa de tese de doutorado em 1958, na Universidade de Chicago,
tendo alguns anos depois se fixado na Universidade de Harvard, até sua morte em 1987, aos
59 anos de idade. No decorrer de seu doutorado, Kohlberg realizou estudos longitudinais nos
Estados Unidos acerca do tema, utilizando-se de dilemas morais, aos quais expunha
indivíduos que entrevistava utilizando-se do método clínico, como Piaget, em suas pesquisas.
Apresentava tais dilemas e pedia aos sujeitos que apontassem soluções aos mesmos sempre
justificando seus dizeres. A seguir, analisava e categorizava as informações que obtinha
considerando as justificativas, o valor moral intrínseco e os argumentos apresentados pelo
sujeito participante da entrevista. Dilema moral, no conceito de DE VRIES e ZAN (1998,p.
98), caracteriza-se por ser uma situação na qual reivindicações, direitos ou pontos de vista
conflitantes podem ser identificados. As autoras ainda caracterizam o dilema sob duas visões:
os dilemas hipotéticos e os dilemas que retratam a vida real, ambos apresentando vantagens
no desenvolvimento do pensamento e reflexão morais. Dilemas hipotéticos, definem as
autoras, não possuem uma carga emocional tão grande quanto dilemas relacionados à vida
real, uma vez que nesse caso, não se está envolvido pessoalmente na situação. Existe algum
distanciamento emocional entre o indivíduo e a história, sendo tidas essas questões impessoais
como um tanto mais simples de serem resolvidas. Sabe-se com elas, que ninguém sofrerá
pessoalmente uma conseqüência real, independente da decisão que for tomada. A razão, nesse
tipo de dilema é visivelmente predominante.
Por outro lado, dizem as autoras, os dilemas da vida real também oferecem certas
vantagens para a discussão. Geralmente ocorrem de maneira espontânea, no próprio meio de
convívio do indivíduo, tornando, na maioria das vezes, as situações familiares para este. Entre
os atores envolvidos na história, encontra-se o próprio indivíduo, tendo as situações de
maneira geral, conseqüências diretas sobre sua vida, de modo que este apresenta uma
preocupação genuína sobre o que pode vir a acontecer. Esse tipo de dilema também oferece a
vantagem de ter consequências que o próprio indivíduo pode reconhecer e avaliar com
relativa facilidade.
Geralmente os dilemas expostos por Kohlberg expunham os entrevistados a situações
limites, o que remetia a profundas dúvidas sobre a opção mais correta que se deve tomar. A
fim de explorar o raciocínio da criança a respeito de um problema moral difícil, como o valor
da vida humana ou as razões para fazer coisas “certas”, Kohlberg criou diversos dilemas,
sendo um de seus mais famosos, o chamado “O Dilema de Heinz”, apresentado abaixo por
BEE (1984, p. 103):
“Na Europa, uma mulher estava quase à morte, com um tipo específico de câncer.
Havia um remédio que os médicos achavam que poderia salvá-la. Era uma forma de rádio que
um farmacêutico da mesma cidade havia descoberto recentemente. O remédio era caro para se
fazer e o farmacêutico estava cobrando dez vezes mais do que ele lhe custava na fabricação.
Ele pagava 200 dólares pelo rádio e cobrava 2000 dólares por uma pequena dose do remédio.
O marido da mulher doente, Heinz, procurou todo mundo que ele conhecia para pedir
dinheiro emprestado, mas só conseguiu aproximadamente 1000 dólares, a metade do preço do
remédio. Ele disse ao farmacêutico que sua mulher estava morrendo e pediu-lhe para vender o
remédio mais barato ou deixá-lo pagar o restante depois. Mas o farmacêutico disse: “Não, eu
descobri o remédio e vou ganhar muito dinheiro com ele”. Então Heinz ficou desesperado e
assaltou a farmácia para roubar o remédio para sua mulher.” Outro de seus famosos dilemas
seria o dilema de Jane, apresentado, por sua vez, por FONTANA ( 1998, p. 254):
“ A mãe de Jane promete que ela poderá ir ao baile no sábado se lavar a louça
durante a semana inteira. Jane lava a louça, mas chegando o sábado, sua mãe diz ter mudado
de idéia, e não a deixará ir ao baile. Jane sai escondida de casa e vai ao baile, confiando o
segredo à sua irmã Mary. Mary deve contar o fato para a mãe?”
Não existe uma solução claramente correta ou incorreta para o dilema, apontam DE
VRIES e ZAN (1998). Kohlberg examinou os argumentos por trás das respostas das pessoas

para as questões sobre o que o personagem do dilema faria. Ele afirma, segundo as autoras,
que as pessoas podem defender a mesma ação por razões muito diferentes, que representam
distintos estágios do raciocínio, dos quais serão falados no decorrer deste estudo.
Somos constantemente levados a tomar decisões – afirma MONTENEGRO (1994, p.
68)- e estas decisões são profundas, peculiares a cada indivíduo, e influenciam o caminho da
sua própria existência. Para que o indivíduo possa assumir seu processo de desenvolvimento
em geral, e moral em particular, faz-se necessário que lhe sejam oferecidas condições
favoráveis para que: tome iniciativas próprias e decisões adequadas; responsabilize-se pelas
decisões assumidas; saiba criticar a si e aos outros, avaliando adequadamente os aspectos que
o levaram a tomar sua decisão. Essas decisões tomadas pelo indivíduo o definem, mesmo que
sejam direcionadas por situações eventuais do meio em que vivem.
MONTENEGRO (1994, p. 47), em sua dissertação de mestrado, expõe que a
resposta moral é fruto das próprias experiências da pessoa e não exclui as causas externas do
comportamento. Elas devem ser analisadas, criticadas, conhecidas e aprendidas, e não apenas
introjetadas, pois agir de acordo com as regras, quando se as entendeu e se sabe porque foram
aceitas, é expressão de uma escolha moral, o que remete ao homem a possibilidade de
assumir-se como sujeito de seu acontecer.
Fazendo um paralelo com a teoria piagetiana de desenvolvimento moral, (o que
considera-se de extrema relevância, uma vez que Kohlberg teve seus próprios estudos
baseados nesta) o que o autor acima citado refere-se como “causas externas apenas
introjetadas e não refletidas”, Piaget denomina, em seus estudos, de Moralidade
Heterônoma. Esta, segundo o próprio autor em sua obra O Julgamento Moral na Criança,
está ligada ao realismo moral e às restrições impostas pelos adultos, que implicam na
unilateralidade nas relações, exigindo o respeito pela autoridade. LA TAILLE (1994, p. 76),
complementa as afirmações acima com seus estudos sobre Piaget, onde este diz que a essa
imposição corresponde um tipo de relação social chamado coerção. Embora esse tipo de
relação seja, naturalmente, o primeiro por que passa a criança, nascendo, portanto, no seu seio
a consciência moral, ele não é suficiente para levar à autonomia, ao contrário, a coerção
reforça a heteronomia moral e seu egocentrismo correspondente.
A educação moral, na perspectiva de Kohlberg, consiste mais em promover o
raciocínio moral do que propriamente em ministrar conteúdos. Essa afirmação de
MONTENEGRO (1994, p. 52) é complementada por outra, de sua própria autoria, que afirma
a importância de causas externas serem analisadas, criticadas, conhecidas e aprendidas,
possibilitando assim ao homem “assumir-se como sujeito de seu acontecer”. Novamente
comparando-se com a teoria piagetiana, define-se esse comportamento pelo termo
Moralidade Autônoma. A autonomia, segundo PIAGET (1977, p.69), está ligada à
cooperação e à responsabilidade subjetiva,que considera as intenções e motivos subjacentes
aos atos e que tem no respeito mútuo uma característica de autonomia moral. A esse novo tipo
de relação, Piaget chamou cooperação, dando a ela a responsabilidade pela consciência da
criança de passar por uma relação social a ser constituída, e na qual deverá colocar-se do
ponto de vista alheio para garantir o acordo e respeito mútuos. A coerção, por sua vez,
responsabiliza-se por ser uma relação já constituída, na qual a consciência só encontra o
espaço da submissão ou da fuga, ambas as atitudes incompatíveis com a reciprocidade. DE
LA TAILLE (1994, p. 77) complementa, expondo que na cooperação, as normas passam a ser
entendidas como normas sociais cujo objetivo é regular as relações entre os homens. A
obediência passiva a imperativos inquestionáveis sucede a obediência ativa decorrente do
respeito mútuo. Considera-se que esse processo de transição do realismo à autonomia moral
ocorre em todas as crianças, a não ser que o desenvolvimento seja interrompido ou,
possivelmente, revertido por coerção incomum dos pais ou da cultura, a qual resulta em
extrema privação de experiências de interação social mútua e recíproca. ( CARMICHAEL,
1978, p. 15)
Kohlberg baseou toda a sua teoria nesse pensamento de autonomia, para a formação
de indivíduos verdadeiramente conscientes e comprometidos com pensamentos e atitudes
morais. Sua teoria é ilustrada em um de seus trabalhos chamado “A Escola Cluster”, uma
experiência do modelo do que ele chamava de “comunidade justa”, o qual nos será
apresentado neste estudo pelas autoras Ângela Maria Biaggio ( 1997) e Maria José Ferreira
Ruiz( 2003).
A Escola Cluster – Uma experiência do modelo de “comunidade justa”
Nas décadas de sessenta e setenta, começaram a surgir escolas alternativas que
refletiam os temas de protestos nos Estados Unidos. Em 1974, um grupo de pais e professores
pediram a Kohlberg que assessorasse uma escola alternativa em Cambridge. Kohlberg que
vinha procurando uma oportunidade desse tipo, aceitou o encargo e foi criada a escola
alternativa conhecida como Cluster. O objetivo dessa proposta era promover o
desenvolvimento moral utilizando-se de um local privilegiado por sua dimensão social: a
escola, local este onde crianças, jovens, professores, enfim, toda a comunidade escolar faz uso
da vida comum.
A Cluster tinha 64 alunos, seis professores e pessoal administrativo que se
encontravam em reuniões de grupo duas horas por dia. Cluster ficava dentro da Cambridge
High School, uma escola pública grande, e os alunos da Cluster tinham aulas na “escolamãe”.
Embora os estudantes passassem mais tempo na Cambridge, eram mais identificados
com a Cluster e se consideravam “de fora” na primeira. Uma vez por semana todos os alunos
e professores se reuniam para uma “reunião da comunidade”. Nessas reuniões, todas as
questões de regras e manutenção de regras eram decididas por meio de discussões e
predominava o voto da maioria, sendo que todos, alunos e professores, tinham um voto cada
um. A agenda das reuniões era feita em conjunto entre Kohlberg e mais alguns alunos
voluntários. Kohlberg defendia que dessa forma, o poder e a responsabilidade das decisões,
assim como as conseqüências das mesmas, estaria nas mãos dos diretamente envolvidos.
Nesses momentos de tomadas de decisões, dentro das perspectivas kohlberguianas, acontecia
a assunção de papéis, onde os participantes eram convocados a assumir o papel do outro, para
tentar dimensionar as reivindicações vendo do prisma da pessoa diretamente envolvida.
As decisões de tais assembléias deveriam ser sempre de forma a se preocupar com a
justiça e com a comunidade como um todo. Solidariedade, confiança, responsabilidade
coletiva e participação, eram virtudes imprescindíveis a serem desenvolvidas nos indivíduos
de tal comunidade, sem as quais a tendência seria tornar a comunidade em um aglomerado de
pessoas, cada qual interessada em suas individualidades.
Estando a comunidade envolvida nas tomadas de decisões, no estabelecimento de
normas e regras, na avaliação de necessidades e reivindicações a tendência seria uma
responsabilidade e um cuidado muito maior no momento de aferir julgamentos, uma vez que
o que está em jogo é a própria existência da comunidade. A questão da manutenção das regras
era preocupação de toda a comunidade, e a violação das mesmas era tratada como uma
violação da comunidade.
As decisões sobre punições de alunos eram feitas numa comissão de professores e
alunos. O ato de punir era visto não como um ato de vingança retributiva, mas como uma
maneira simbólica de reafirmar a autoridade democrática do grupo e de “curar as feridas”
feitas à comunidade. A teoria da comunidade justa enfatiza que não pode haver um exercício
eficaz de autoridade sem a presença de uma comunidade viável à qual todos os membros têm
o sentimento de pertencer.

Kohlberg, ao propor a “comunidade justa”, acreditava que tal comunidade seria local
onde os alunos exercitariam as virtudes necessárias para a vida em sociedade, desenvolvendo
o hábito do diálogo, da assunção de papéis, de habilidades racionais e de julgamento moral, o
que conseqüentemente remeteria a autonomia moral tão proclamada por Piaget.
Power, um dos colaboradores de Kohlberg no trabalho da “comunidade justa”,
empenhou-se em desenvolver uma maneira de avaliar a atmosfera moral da escola. Há um
considerável número de pesquisas sobre o desenvolvimento moral de indivíduos, mas não de
grupos. Especificamente, esse autor se interessava por duas questões: em primeiro lugar, o
grau em que os membros de uma escola compartilham normas e estão comprometidos com
sua manutenção, e em segundo lugar, o estágio moral dessas normas e valores
compartilhados.
Estágios de desenvolvimento moral, foi algo exaustivamente estudado por Kohlberg.
Se mais uma vez comparado a Piaget, nesse campo Kohlberg deu muitos passos além.
Considerava que Piaget estava correto em assinalar uma ligação entre o desenvolvimento
cognitivo e o raciocínio moral. Porém, ele considerava o processo muito mais longo do que
Piaget propusera. Ao invés de uma única mudança, da moralidade heterônoma para a
moralidade autônoma, Kohlberg considerou que havia muitos estágios, a começar nos 6 ou 7
anos, estendendo-se até a idade adulta. O processo estaria dividido em três níveis de
desenvolvimento, com dois estágios cada um.
Como praticamente todas as pesquisas mais recentes acerca do tema
desenvolvimento moral, baseiam-se na teoria dos estágios de Kohlberg por, justamente
apresentar-se mais completa e profunda, este estudo inclui-se nessa estatística. A seguir, os
autores Eduardo Luiz Lopes Montenegro, Ângela Maria Biaggio e Maria José Ruiz
apresentarão os referidos estágios da teoria kohlberguiana de desenvolvimento moral.
Níveis e Estágios de Desenvolvimento Moral de Kohlberg
Nível I - Pré-convencional ( de 2 a aproximadamente 6 anos)
Nível pré-convencional corresponde, em termos gerais, à moralidade heterônoma
estudada por Piaget. Neste nível, a criança interpreta as questões de certo e errado, bom e
mau, em termos das consequências físicas ou hedonistas da ação. Toda ação punida é vista
como má, e toda ação premiada é moralmente correta. Portanto, este nível de moralidade
reduz-se a um conjunto de normas externas, a que se obedece para evitar o castigo, a punição,
ou para satisfazer desejos e interesses estritamente individualistas.

Estágio 1 - Orientação para a punição e a obediência
a) Orientação Moral: Para a punição e a obediência
b) Justificativa dos julgamentos: Evitar o castigo e o exercício do poder superior que
as autoridades têm sobre o indivíduo
c) Perspectiva sócio-moral: Não distingue nem coordena perspectivas. Apenas existe
uma perspectiva correta, a da autoridade.
Estágio 2 - Hedonismo Instrumental Relativista
a) Orientação Moral: Orientação calculista e instrumental; pura troca; hedonismo e
pragmatismo
b) Justificativa dos julgamentos: Servir a necessidades e interesses próprios em um
mundo em que há outras pessoas com seus interesses
c) Perspectiva sócio-moral: Distingue perspectivas, coordena-as e hierarquiza-as do
ponto de vista dos interesses individuais
Nível II -Convencional( idade escolar)
No nível convencional, o justo e o injusto não se confundem mais com o que leva à
recompensa, ou ao castigo, à punição. Se define pela conformidade às normas sociais e morais
vigentes. Assim, o indivíduo que está no nível de moralidade convencional é aquele que
procura viver conforme as regras estabelecidas, com o que é socialmente aceito e
compartilhado pela maioria, respeitando a ordem estabelecida. Portanto, há uma tendência a
agir de modo a ser bem visto aos olhos dos outros, para merecer estima, respeito e
consideração.
Estágio 3: Moralidade do bom garoto, da aprovação social e das relações interpessoais
a) Orientação Moral: Orientação para o bom menino e para uma moralidade de
aprovação social e interpessoal
b) Justificativa dos argumentos: Precisa corresponder às expectativas alheias. Tem
necessidade de ser bom e correto a seus olhos e aos olhos dos outros ( família, amigos...);
importa-se com os outros: se trocasse de papel iria querer um bom comportamento de si
próprio. Este é o estágio da regra de ouro: “aja com os outros como gostaria que eles agissem
com você”

Nível III- Pós-convencional (adolescência)
Valor moral das ações não está nas conformidade às normas e padrões morais e
sociais vigentes; está vinculado aos princípios éticos universais, tais como o direito à vida, à
liberdade e à justiça. Portanto, as normas sociais são entendidas na sua relatividade, cuja
finalidade é garantir que estes princípios sejam respeitados. Caso isto não aconteça, as leis
devem ser transformadas e até desobedecidas. Neste nível, a sociedade não teria sentido se
não estivesse a seviço desses direitos individuais fundamentais, que sejam universalizáveis,
reversíveis e prescritivos.
Estágio 5: A orientação para o contrato social democrático
a) Orientação Moral: Orientação para o contrato social , para o relativismo da lei e
para o maior bem para o maior número.
b) Justificativa da argumetação: Obrigação de cumprir a lei em função de um
contrato social: protege seus direitos e os dos outros. Leis e deveres são baseados em cálculo
do maior bem para o maior número de pessoas (critério da utilidade)
c) Perspectiva sócio-moral: Distingue perspectivas, coordena-as e começa a
hierarquizá-las do ponto de vista de uma terceira pessoa moral, racional e universal.
Estágio 6: Princípios universais de consciência
a) Orientação Moral: Orientação para os princípios éticos-universais, prescritivos,
auto-escolhidos, e generalizáveis.

b) Justificativa da argumentação: Como ser racional, percebe a validade dos
princípios e compromete-se com eles.
c) Perspectiva sócio-moral: Distingue perspectivas, coordena-as de um ponto de
vista ideal e hierarquiza-as segundo uma perspectiva moral, racional e universal.
De acordo com RUIZ (2003 p.45), Kohlberg desenvolve um aparato metodológico
através do qual faz um diagnóstico detectando em qual nível a pessoa se encontra. Através do
diagnóstico, propõe maneiras de intervir no intuito de fazer com que as pessoas caminhem de
um nível de moralidade a outro subsequente.
Em relação ao desenvolvimento moral da criança, MONTENEGRO (1994) descreve
que os estudos de Piaget mostraram que até os sete ou oito anos a maioria das crianças
incorporam no seu pensamento e ação moral elementos heterônomos e que, a partir daí, a
autonomia moral começa a ocupar o lugar da heteronomia moral. Os estudos de Kohlberg, por
sua vez, mostraram que há ainda profundas transformações no desenvolvimento moral a partir
do dez, onze anos, e que o indivíduo que está no nível pré-convencional tende a evoluir do
estágio I para o estágio II, e assim sucessivamente. Isto significa dizer que a seqüência de
passagem de um estágio para outro é invariante, sendo que os fatores culturais podem variar a
velocidade destas passagens, mas não se modifica a seqüência dos estágios.
De acordo com BEE (1984 , p. 104), para a maioria de nós, o estágio cinco
caracteriza-se como o estágio “final” em nosso raciocínio moral, e muitos adolescentes e
adultos nem chegam a atingir esse estágio. A autora caracteriza o estágio quatro como a base
mais comum de julgamento moral entre adultos. Segundo a autora, estudiosa das pesquisas
kohlberguianas, muito poucas pessoas realmente operam segundo algo que lembra o estágio
seis de desenvolvimento moral. Essa afirmação é confirmada na fala de Kohlberg,
interpretada pela mesma autora: “Meu sexto estágio é basicamente uma construção teórica
sugerida pelos escritos de figuras de “elite” como Martin Luther King; e não uma construção
desenvolvimental empiricamente confirmada.”
Kohlberg fez muitas afirmações a respeito dos estágios de desenvolvimento moral.
Primeiro e principalmente, ele argumenta que eles são estágios verdadeiros, seguindo-se um
ao outro numa ordem invariante e que cada estágio constrói-se sobre o precedente.
(BEE, 1984, p.105) Destaca-se aí o pressuposto construtivista (associação entre a idade e
certos níveis de desenvolvimento moral), por entender que o desenvolvimento moral resulta
da atividade estruturante do sujeito na sua relação com o meio. Kohlberg considera que cada
estágio de raciocínio moral novo só aparece quando o indivíduo dominou completamente o
anterior. Portanto, complementa MONTENEGRO (1998, p. 62), seu desenvolvimento resulta
menos de acomodações passivas ao meio e mais de sua atividade assimilativa e construtora.
Este pressuposto construtivista tem um forte vínculo com as questões educacionais, pois de
acordo com essa perspectiva, o sujeito passa a ser um elemento ativo que constrói
gradativamente seus esquemas de julgamento moral a partir de suas experiências de vida. A
aprendizagem da moral passa a ser vista, nesta perspectiva, como um processo realizado pelo
próprio indivíduo que aprende, e não mais como simples imitação de modelos adultos.
Retornando aos estudos de BEE (1984, p. 105), têm-se que Kohlberg argumenta
também, que os estágios de raciocínio moral estão vinculados ao desenvolvimento cognitivo
em aspectos importantes. Sua posição básica é que cada novo nível de funcionamento
cognitivo é uma condição necessária, mas não suficiente, para o novo nível de raciocínio
moral.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BEE, Helen. A criança em Desenvolvimento. 3 ed. São Paulo: Harper & Row do Brasil,
1984;
BIAGGIO, Ângela Maria Brasil. Kolbergh e a “Comunidade Justa”: promovendo o senso
ético e a cidadania na escola. Psicologia, Reflexão e Crítica, Porto Alegre,v 10, 19p, janeiro
1997;
CARMICHAEL, Leonard. Manual de Psicologia da Criança. v 9. São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 1978;
DE LA TAILLE, Yves.A Dimensão Ética na Obra de Jean Piaget.Idéias, São Paulo,n20.85p,
1994.
DE VRIES, Rheta & ZAN, Betty. A Ética na educação infantil: o ambiente sócio-moral na
escola. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998;
FONTANA, David. Psicologia para Professores. São Paulo: Edições Loyola, 1998;
MONTENEGRO, Eduardo Luiz Lopes. A Educação Física e o Desenvolvimento Moral do
Indivíduo numa perspectiva Kohlberguiana. Rio de Janeiro:Universidade Gama
Filho,1994. 93p;
PIAGET, Jean. O Julgamento Moral na Criança.São Paulo: Mestre Jou,1932;
RUIZ, Maria José Ferreira. Reflexões sobre a Moralidade Infantil. Revista Iberoamericana
de Educación, Brasil, v.10, n 33, p. 1 – 20, 2003.

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